CAMINHAR É PRECISO: BEM VIVER EM CAICÓ

CAMINHAR É PRECISO: BEM VIVER EM CAICÓ

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A Diocese de Caicó no seu desejo de estar próximo dos excluídos, pelo seu Organismo articulador das Pastorais Sociais – CÁRITAS DIOCESANA – fez acontecer nos dias 23, 24 e 25 de novembro de 2018 o II Seminário intitulado: CONHECER PARA CONSTRUIR SOCIEDADES DO BEM VIVER. Neste encontro reconhecemos o valor estimulante de bons PARCEIROS. Sem citar nomes, agradecemos muito e nos comprometemos na criação de um mundo que ultrapasse a violência e favorecendo Políticas publicas adequadas, pois só assim e paulatinamente quebraremos as disparidades sociais, violência matriz de todas as demais violências.

Tudo começou no dia 23 de novembro, uma sexta-feira, pelas 20 horas. Feito o credenciamento e um jantar, na área em frente ao Centro Pastoral Dom Wagner houve uma Mística, modo dinâmica de rezar em nossas comunidades, onde nossa Caritas atua. Aqui resgatamos a problemática do índio e negros de nosso país à luz do Cântico Oferenda do Pe. Zezinho. No pátio semi-escuro, sobre frases estimuladora, aos poucos fomos iluminados pela fogueira que circulado por uma grande roda e neste envolvimento fomos entrando no Plenário para as boas vindas, palavras de abertura e palavra de acolhimento dos quase 200 participantes das várias pastorais sociais diocesanas e amigos de outras paradas.

Todos acolhidos e acomodados, os agentes Cáritas Diocesana: Fabiana e Tiago apresentaram os “palestrantes” ambos falaram de sua alegria de poder contribuir pelo bom desenvolvimento do encontro iniciado.

O primeiro a falar-nos foi César Sanson, abordando o tema: POLÍTICA, CLAMORES DO POVO, A ESPERANÇA UTÓPICA. O mesmo fez uma geral da Conjuntura política do Brasil e falou-nos do anti-sistema que estamos a experimentar, onde a desigualdade social é gritante, inclusive no RN. As ditas esquerdas brasileiras precisam penitenciar-se, contudo não teremos saídas com a minimização do Estado, a criminização dos Movimentos sociais e o desmantelamento dos ganhos democráticos adquiridos com lutas. Fez a pergunta: como recuperar a UTOPIA? Urge resistência ativa, organização de debates em todas as instancias sociais, formação política, etc. Não cabe o fechamento, pois sabemos que a História é dialética.

Num segundo momento falou-nos Teresinha Toledo, líder do Movimento Fé e Política em âmbito de Brasil. Trouxe-nos a questão do BEM VIVER, realidade vivida pelos povos pré-colômbio e as experiências quilombolas de toda a América Latina. Aqui o ser humano tem uma relação respeitosa da natureza e não se deixa levar pela exploração até o exaustão da “casa comum”, como tem assinado a LADOTO SI. Homem e natureza precisam se encontrar, pois devemos assumir a ideia bíblica de cuidador e não de explorador com o único fim de acumular e fazer riquezas. É preciso escutar este pensar e assumirmos um desenvolvimento sustentável e não cair no desenvolvimentismo, tão buscado pela cultura do acumulo. Urge priorizar o ser humano e não o capital em si, alternativo para desobstruir as veias abertas da América Latina. Importa é o ser humano, não ao modo socialista, nem o capital como postula o capitalismo, mas a vida em todas suas manifestações. Requer uma retomada a comunhão ancestral com a natureza e o cosmo. Respeitar os direitos cósmicos ampliando o conceito de Direitos humanos, hoje determinado pela concepção individualista e subjetivista que nos envolve. Em síntese viver bem, não é viver melhor, ser envolvido no acumulo mercantil e consumista, mas aponta para uma vida simples que mantém uma produção equilibrada e bem distribuída. Descolonizar e Bem Viver estão intrinsecamente ligadas. Rasgos deste Bem Viver os cristãos podem encontrar na Bíblia na ideia de Reino de Deus, tão marcante na formação dos Discípulos do Senhor, seu testemunho cria a Igreja.

Terminada essas compreensões, foi aberto um diálogo entre assembleia e debatedores.

Concluiu-se que os Movimentos sociais estão desestruturados e sem força de ação. O Estado prima por políticas universais e nosso futuro “só Deus sabe”. Contudo não cabe o medo, temos de priorizar ações concretas, não é salutar a indiferença dos jovens. Devemos optar pelo trabalho de base e em novas formas de organização do povão. Não podemos cair na criminalização da política e urge acreditar nas minorias “abraamicas” conforme Dom Helder.

Para encerrar nossa noite tivemos um pequeno AUTO, apresentado por algumas crianças e jovens que nossa Cáritas Diocesano acompanha nas periferias de Caicó, onde se abordou a persistência da luta do nordestino, Lampião no inferno não entrou, no céu também não chegou, por certo está no ser-tão animando as lutas populares.

Logo foi apresentado o programa do dia seguinte, onde pela manhã teremos as oficinas, denominada de CIRANDAS, algumas vividas no Centro Pastoral Dom Wagner e outras nas dependências da Universidade do RN, próximo ao nosso Centro.

Boa Noite, um sono restaurador!

O dia 24 de novembro começou com um belo momento de espiritualidade, onde colocou-se como central a Palavra da Escritura que trata sobre as Bem Aventuranças (Cf. Mt 5, 1-11). Logo depois foi servido o café matinal. Voltamos para o Plenário e foram apresentadas as propostas para a vivência das Oficinas que foram escolhidas previamente ou por afinidades: Ciranda da Terra e dos Imigrantes, das Mulheres, das Juventudes, do Bem Viver e da Fé e Política. Os resultados das mesmas foram socializados a tarde deste dia, sobressaindo pela apresentação às cirandas dos jovens e das mulheres.

Cada oficina teve desenrolar e assessor próprio, mas ao meio-dia foi servido o almoço no Centro Pastoral Dom Wagner, com um cardápio bem caicoense.

Numa tarde bem quente, onde nem o Ar Condicionado do Dom Wagner foi suficiente foi a vez de Telma Gurgel e Ivo Poletto falarem de POLÍTICAS PÚBLICAS.

Telma tentou resgatar alguns conceitos básicos, falando de memória social e práxis social. Admirável é o esquecimento de nossas lutas democráticas submergidas pelo Estado capitalista e políticas sociais. E aqui temos um grande desafio: quais os inimigos? O capitalismo tende apropriar-se do fruto do trabalho e tudo passa ao plano do mercado, inclusive a ciência e a tecnologia. No Brasil vivemos o capitalismo tardio, criando uma economia desigual que favorece crises internas constantes com desemprego e insegurança. Elementos cruciais a vida são deixados em segundo plano favorecendo as multidões de indigentes. Aqui cabe a luta por igualdade, a mobilização social, contudo a “onda” conservadora tem forçado a ideologia do grande que afronta as minorias e aumenta a desigualdade. Precisamos recuperar o trabalho de base, a vida não pode ser espezinhada e nosso ativismo é por dignidade. Concluiu que o Povo brasileiro tem um defeito: saber pensar.

Por seu lado, Ivo iniciou seu discurso falando da contradição que envolve nossa brasilidade, pois nossas lideranças têm medo do povão e por isto faz todo o possível para controlar o processo democrático, isto tão comum na História do Brasil. As lutas populares sempre terminam nas mãos dos “sempre donos”. Nesta perspectiva até a Constituição Cidadã em seu Art. 14 tem sua autodestruição. Inclusive o evento Lula e PT nunca foram engolidos pelas elites, suportando-os até o golpe Temer e a interferência no processo eleitoral último. Este processo tem por base o medo e assim tudo deve ser controlado, gerando concentração de poder. Assim, onde podemos agir? Urge fazer mais política, conversar sobre a realidade, continuar lutando por ideais democráticos, criar mais espaços de politização e não assistencialismo, assumir nossas pequenas organizações, etc. Deixemos as acomodações pois novos temas precisam ser repensados como a política energética e inovações tecnológicas, contudo nenhum Direito a menos. Neste processo precisamos de gente para articulação e nada de preconceitos. Concluiu Ivo: precisamos de Democracia daí as organizações e a opção pratica da Justiça.

Terminado a fala dos assessores, foi dada à assembleia a possibilidade de questionar. Sobressaiu a problemática do falso moralismo, da religião excludente, onde se fala de tudo menos do Projeto de Jesus Cristo e de sua Igreja com Francisco. Reina uma tendência ultraliberal que nagativizou o projeto dito de “esquerda” sem piedade. O que fazer? É preciso mudar de estratégia, onde escutar é prioritário. Cabe ao jovem, apesar de não ser reconhecido, iniciativas originais e nunca “bater de frente”, mas priorizar o trabalho de base, inventar novas formas de ação sem se deixar levar pelo jogo ideológico.

Depois da merenda, foram apresentados no plenário os resultados das Oficinas. Cada uma deu suas proposições e no “fundo” a assembleia tem perspectivas novas de lutas e empenhos democráticos. Basta opções claras e pequenos gestos para concretizar a SOCIEDADE DO BEM VIVER.

Neste espírito, todos foram convidados para um gostoso banho, um bom jantar e a participação ativa na NOITE CULTURAL, onde os valores pessoais devem ser socializados.

Ultimo dia, domingo, dia 25 de novembro de 2018. Tudo começou com o café matinal. A Igreja celebrava neste dia a FESTA DE CRISTO, REI UNIVERSAL e a Igreja no Brasil quer encerrar o ANO DO LEIGO, efemérides importantes para a Fé cristã católica. Para celebrar tudo isto e encerra nosso II Seminário: CONHECER PARA CONSTRUIR SOCIEDADES DO BEM VIVER, todos os participantes foram transportados para o Santuário de Nossa Senhora do Rosário em Caicó, onde se celebrou a Missa dominical de costume com a presença do Bispo Diocesano, a assembleia de sempre e os participantes do Seminário, que deu um toque bem especial a celebração, que foi bem acolhida pela comunidade orante. O Bispo em sua homilia falou das efemérides celebradas, ressaltando a experiência do Leigo na Igreja e finalmente retomou a poesia em música “O Rei” de Edson Conceição, mesmo autor de “Não deixe o samba morrer”, questionando, assim, as lutas dos trabalhadores brasileiros e suas frustrações diárias. Dado a palavra no final da celebração o Assessor Ivo fez uma síntese sobre a figura de Jesus diante de Juiz Pilatos e sua perspectiva de Rei e Reino, com novas características e empenho.

De volta ao Centro Pastoral Dom Wagner foi feito um confronte entre o Bispo diocesano e o Professor José Francisco das Chagas, mais conhecido, Prof. Déda, sobre a POSSIBILIDADE DE UMA TEOLOGIA POPULAR, e Pe. Neto intermediou o debate.

Dom Antonio iniciou resgatando um trabalho recente de José Maria Castilho onde afirma que Teologia se faz do lugar em que estamos, entretanto o referencial é sempre o fato Jesus de Nazaré. Nesta perspectiva cada tempo tem novos modos de compreensão e o Bispo citou a interferência do Papa Francisco no Catecismo da Igreja Católica quanto a compreensão da Pena de Morte. O Bispo retoma o Papa Francisco, em sua mensagem para a celebração do dia Mundial dos Pobres, para afirmar categoricamente que Teologia se faz a partir da realidade do ser humano e cita: “Eles (os pobres) são um presença real de Jesus no meio de nós”. Nesta compreensão o grande perigo é o ritualismo e aqui cabe ficar atento ao que Deus nos propõe como processo libertador, humanizador.

O professor Déda começou falando de sua experiência de formação no Seminário, compreende-se um professor de Filosofia, embora reconheça sua ligação com a Teologia, apesar da negação ao mundo acadêmico, em especial quando aflorada nas massas empobrecidas de nossas periferias. Fazer teologia implica um caminhar junto, animar experiências eclesiais. Teologia não é questão de “rezar mais”, viver olhando para o céu, alhear-se da comunidade, mas vislumbrar o agir de Deus libertador em ação na Historia eclesial. Aqui, o palestrante falou de sua formação seminarística e apela para o não fechamento no discernimento vocacional. Disse que as Escolas Bíblicas devem ser estimuladas e incentivadas, pois a Teologia nasce na comunidade de Fé, respalda na experiência da História da Salvação.

O tempo já estava corrido, ainda tentou-se parabenizar o Bispo em seu aniversário, mas logo teve de sair para um encontro com os padres da sua Diocese. Apesar dos encaminhamentos rápidos, foi ainda possível resgatar algumas propostas da Assembléia. Frisou-se a realidade dos pobres como instancia eclesial e teológica.  Em relance abordou-se a questão de índios e negros na sociedade envolvente de muitas exclusões. Foi dito que o cristianismo precisa ultrapassar o eurocentrismo, urge uma Igreja mais brasileira e latina americana. É preciso tomar consciência de que o conservadorismo valeu, mas passou e não é bom viver no saudosismo. Por fim, neste processo o clericalismo deve ser repudiado com veemência.

Para encerra tudo apresentou-se um AUTO, novamente vivido pelas crianças e jovens assistidas pela Cáritas Diocesana, em que um pinguinho de tinta caído no papel pode transforma-se numa grande perspectiva de futuro, experiência ou experiências de Bem Viver, como lembra Aquarela de Toquinho.

Bom almoço e um Bom retorno às suas ações cotidiana. Assim findamos o II Seminário Conhecer para Construir Sociedades do Bem Viver com uma mística voltada á Mariama:


 
Por: Pe. Manoel Pedro Neto – Presidente da Cáritas Diocesana de Caicó

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